terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Continuo viva

"Que seja doce - repetia todas as manhãs" 
Caio F. de Abreu


“Continuo viva”, pensou enquanto abraçava o próprio corpo e erguia a cabeça rumo ao céu. “Continuo viva”, reafirmou ao sentir o calor da imensa bola de fogo tocando cada parte de seu corpo, sentiu cada poro se abrindo, o arrepio surgindo e ele ainda caminhando atrás dela, em passos lentos como sempre fazia,partindo.
-Certas coisas a gente não explica, Sara. Simplesmente não dá mais pra mim.
Ela então se lembrou de uma música que gostava muito que dizia “algumas coisas são melhores se deixadas desconhecidas” e pela primeira vez na vida parou de questionar, decidiu que deixaria a vida seguir seu curso, o amor bater em seu tempo e aceitar os acontecimentos. Sentiu um imenso nó no peito, uma repulsa no estômago e as pernas bambas ao pensar que Tom, que estava ali tão lindo como sempre, parado à sua frente com aquele meio sorriso, olhos apertados e braços cruzados, dali em diante não estaria mais. Doeu pensar que ela teria que vê-lo partir e ficar com todas as lembranças pra si, pra serem destruídas, ou serem arquivadas, relembradas quem sabe. Seu olhar era fixo, seu pensamento era vago.
-Sara – ele a tocou no braço a fazendo acreditar por um momento que tudo fora um sonho – não vai dizer nada?
Ela então segurou a mão que a tocava, colocou em sua cintura e jogou os braços em volta do pescoço daquele que ela tanto gostava, daquele com quem ela havia dividido parte de sua história, entregado muito de si, confinado segredos, trocado olhares, beijos, carícias, trocado um pedaço de alma, dado um pedaço enorme da carne vermelha e sangrenta denominada coração. Sara sentiu quando ele a apertou um pouco mais e suspirou. Ficaram ali entregues um ao outro até que cada um pudesse guardar o cheiro, o gosto, o jeito, o corpo, o sentimento, o toque do outro. Ficaram tão entregues um ao outro que por um instante pareceram um. Um par perto de virar ímpar. Ela guardaria aquele abraço; ele guardaria aquela sensação; ela guardaria os beijos; ele escolheria guardar a diversão; ela se arrependeria depois por ter se entregado tanto; ele se arrependeria depois por ter achado que não merecia esse tanto; ou talvez não. Talvez com o fim do abraço fosse o fim de uma história.
-Você precisa se cuidar – ele disse em seus ouvidos.
-Vou sentir sua falta – foi o que ela conseguiu responder.
Quando enfim se soltaram, olharam-se pela última vez, flashs aparecendo na memória de cada um: primeiro encontro, primeiro beijo, discussões, brincadeiras. Ele então se virou, colocou as mãos nos bolsos e partiu em passos lentos rumo ao leste. Era dolorido demais vê-lo ir embora, então Sara virou-se, fechou os olhos e ajoelhou. Desabou. Durante cinco minutos ficou ao chão, lamentando pela partida de alguém tão querido, mas uma voz interna lhe disse: “Você continua viva. Com um pedaço a menos de você, mas com um pedaço enorme daquele cara, e isso vai te fazer viver; Estamos aqui pra no fim levar quase nada de nós e muito dos outros. Os pedaços são nossos combustíveis, os outros são nossos postos. E como todo posto, toda estação, devemos passar e deixar que passem também.
A menina de olhos cor de esmeralda se levantou, abraçou o próprio corpo,  ergueu a cabeça aos céus e em pensamentos disse a si mesma: “Continuo viva e isso é tudo que preciso para viver hoje”.


Isa G.


8 comentários:

  1. Tão bom ler um texto seu novamente, Isa :)
    Lindo, muito lindo mesmo. Apesar da dor da perda de um grande amor ser imensa, devemos acreditar que aquilo não é a morte, o fim do mundo. Temos uma vida a viver, uma realidade a seguir. Perdemos uma parte de nós, mas jamais perdemos nossa vida por completa.
    Lindo mesmo!

    Beijos!

    *Teria algum problema em eu lhe adicionar no orkut?

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  2. Que falta senti desta suas palavras, destes seus sentimentos.
    É como você disse, perdemos uma parte nossa, mas ganhamos uma parte de outro alguem e assim nos completamos aos poucos.
    "Um par perto de virar ímpar."
    Lindo texto.

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  3. Mudar é sempre bom. A despedida nunca é um momento agradável, mas a sensação de liberdade, de estar abrindo as portas para novas experiências é impagável e compensa o sofrimento do "adeus".

    Não sou muito fã de doce não, café pra mim só sem açucar! Mas adorei o seu blog e a forma sincera como você escreve!

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  4. Que saudade de vc por lá ;)
    Adorei a visita!!!

    Bjs =*

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  5. Esses textos tão seus, tão singelos e ao mesmo tempo intensos. Belíssimo. Íssimo.

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  6. GOstei muito da forma como escreve. Parabéns.

    http://integraldeideias.blogspot.com/

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